Morte-Certa

– PEDRO THIAGO DE ALMEIDA OLIVEIRA JÚNIOR! QUE DIABOS ESTÁ FAZENDO COM ESSA FACA NA MÃO!?

– Nada. – disse pelo canto da boca com voz de enterro.

– NADA!?

– Olha mãe, eu já sou bem "grandinho" – fez um gesto com os dedos para indicar as aspas. – para poder usar uma faca sozin...

– Nada disso! Você pode ter 30 anos mas não mexe com material cortante! – ela atravessou a cozinha, tirou a faca da mão do menino e a colocou numa gaveta após uma cuidadosa lavagem. – Quantas vezes eu vou ter que tirar essa faca da sua mão?

– Ai, mãe, para de me encher o saco! – a voz de enterro parecia  mais intensa.

– Não, não paro mesmo! – puxou o filho pelo braço para se sentarem numa das velhas cadeiras da cozinha.

– Querido, – A voz tinha um tom melódico, quase carinhoso. – tudo que eu e seu pai fazemos...

– ... é para o meu bem, sei, sei. – completou. – Já conheço esse discurso.

– Mas me parece que você não segue mais os meus conselhos!

- Ah, Mãe! Não vamos começar tudo de nov... O QUE É ISSO? - gritou antes que pudesse evitar que sua mãe colocasse um grande pedaço de um bolo aparentemente podre em sua boca.

- Come, meu filho! É bolo de jenipapo.

- ECA! QUE NOJO! - cuspiu. - QUE GOSTO HORRÍVEL! - Cuspiu outra vez.

- Passou no globo repórter que bolo de jenipapo é bom pra auto-estima! - a mãe dele dizia tentando enfiar um pedaço ainda maior e aparentemente ainda mais podre na boca do menino.

- COME DIABO DE FILHO INGRATO!

- A SENHORA TÁ DOIDA? - definitivamente a voz de enterro havia sumido.

- AAAHH!! ERA EXATAMENTE ISSO QUE EU QUERIA OUVIR!

- Hã?

- Meu filho falando que nem Homem!

- Ah, que merda! Eu já te falei que não sou gay. Sou emo!

- Foi por isso que o psicólogo me mandou manter você longe de objetos cortantes!

- Agora, COME ESSE PEDAÇO DE BOLO!

E pelas próximas quatro horas, Pedro foi surpreendido pela mãe para comer o bolo. Ela só parou quando o rapaz, após comer o quarto pedaço do bolo que de fato estava podre, cantarolou uma música bem feliz que ela havia ouvido no rádio outro dia que começava assim: "♫E eu sei♪ que assim talvez seja ♫ melhor...♪" 




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