Sobre
Tenho pensado que uma das maneiras de compreender minha relação com o mundo é reconhecer que sou uma pessoa em movimento. Não necessariamente porque sei para onde estou indo, mas porque dificilmente consigo permanecer muito tempo diante das coisas sem querer compreendê-las. Existe em mim uma inquietação constante, uma necessidade de observar, investigar, aprender e experimentar. Conhecimento e coisas novas nunca me parecem demais. Cada descoberta tende a produzir outra pergunta; cada ferramenta aprendida amplia as possibilidades de perceber e de agir.
Talvez por isso minha trajetória pareça tão múltipla. Teatro, fotografia, educação, escrita, pesquisa, direção, produção e tantas outras experiências não me parecem territórios completamente separados. São formas diferentes de me aproximar da realidade. Nunca me reconheci inteiramente na ideia de especialização como destino. Interessa-me, ao contrário, poder atravessar linguagens, estabelecer relações entre conhecimentos e utilizar ferramentas diferentes conforme aquilo que uma situação exige. Minha multiplicidade é repertório.
Há também algo que se repete nesses movimentos: uma necessidade de mostrar. Tenho facilidade para observar situações, perceber relações, fazer diagnósticos e organizar aquilo que parece disperso. Isso pode acontecer através de uma fotografia, de uma aula, de uma entrevista, de dados, de uma obra ou da construção de um projeto. Em todos esses casos, existe um gesto semelhante de trazer às vistas alguma coisa que percebi. Não necessariamente para dizer aos outros o que devem pensar ou fazer, mas para tornar possível uma discussão mais honesta sobre aquilo que vejo.
Talvez minha maior inquietação surja justamente quando o que se torna visível não produz movimento. Incomoda-me perceber problemas, possibilidades ou urgências e encontrar, diante deles, a inação. Isso aparece tanto nas pequenas estruturas de trabalho quanto nas questões que me atravessam como ser humano: a crise climática, as guerras, os deslocamentos humanos, a destruição da natureza, as diferentes formas de colapso que aprendemos a acompanhar quase cotidianamente. E como coletivo permanecemos na imobilidade.
É nesse ponto que a arte assume, para mim, uma função particular. Ela é uma possibilidade de subverter a dureza do real. Quando não consigo modificar aquilo que vejo, ao invés da ansiedade, crio. Quando alguma coisa me inquieta, experimento. Quando não sei fazer, aprendo. Quando uma linguagem não basta, procuro outra. A criação transforma minha relação com com o que me inquieta. Talvez por isso eu produza tanto, pois é também uma maneira de preservar minha sanidade, organizar minhas ideias e impedir que aquilo que percebo permaneça apenas dentro de mim.
Ao mesmo tempo, não acredito que todo processo precise saber antecipadamente onde vai chegar. Gosto de uma bússola, não de um percurso fechado. Gosto de métodos que permitam descobrir alguma coisa durante o caminho. Mesmo quando uma experiência não resulta naquilo que inicialmente se imaginava, ela ainda produz conhecimento, revelar limites, abre perguntas e indica outras possibilidades. Há muito valor no que se descobre enquanto se tenta.
Talvez seja essa a tensão que melhor define o momento em que estou, vendo despontar no horizonte os 40 anos; querendo compreender, e não apenas observar; Curiosamente, quanto mais penso no futuro, mais percebo a importância de ancorar o presente. O passado constitui aquilo que sou e o futuro oferece horizonte, mas nenhum dos dois é o lugar onde posso agir. Reconhecendo onde estou para poder escolher o próximo movimento: observar, compreender, mostrar, discutir, experimentar, aprender, criar e, quando possível, transformar.